Hesito. Ouço o eco vazio de uma promessa que fiz e que se repete infinitamente: arrisca, não desistas. Mas o medo é mais forte apesar de saber que estou a sabotar a oportunidade de ser feliz. Porque é que destruímos uma hipótese de construir uma vida melhor só porque temos medo de arriscar? Porque é que preferimos viver num marasmo emocional onde tudo o que resta é a apatia e a indiferença? Quando é que vamos perceber que ao não arriscar nada, estamos a arriscar tudo o que poderíamos ter ou vir a ser?
É este o modus operandi do ser humano. Desde o dia do nascimento que estamos vivos, mas estaremos mesmo a viver? Ou seremos apenas cadáveres à espera de morrer? Crescemos amarrados a um conjunto de regras e o que acontece a quem se atreve a quebrá-las? Será mais feliz? Atingimos metas e objetivos, trabalhamos para isso, esperando o sucesso, a riqueza e a luxúria. Tenho um sonho, mas quando penso nisso, a probabilidade de falhar é enorme e então resigno-me ao comodismo. É mais fácil viver com segurança, sabendo que amanhã não me espera nenhum abismo. O inesperado e o desconhecido assustam. Assim estás bem.- Vais construir uma família, ter um carro, uma casa, um curso, trabalhar arduamente para sustentar os vícios e depois terás o descanso merecido. – Dizem-me.E depois vou morrer e nesse momento é que me vou aperceber que deveria ter lutado. Vou arrepender-me de não ter dado azo aos meus sonhos e de ter preferido a conjuntura de normas que escolheram quando eu nasci. Vou ter inveja dos corajosos e perceberei, desgostosa, que não posso voltar atrás e que o tempo terminou. Não há mais oportunidades. Vou desejar poder dar um passo em direção ao abismo, fechar os olhos, respirar fundo e acreditar. Acabou-se. Não arriscaste, perdeste tudo. Perdi muito mais do que o que alcancei.
Acordo repentinamente com o rádio a tocar Maria Bethânia. 'Debaixo d'água, protegido, salvo, fora de perigo. Aliviado, sem perdão e sem pecado, sem fome, sem frio, sem medo, sem vontade de voltar, mas tinha que respirar'. Percebo que afinal o fim ainda não chegou e que me posso libertar das amarras que me impedem de respirar. Posso encher os pulmões de ar e saltar para o abismo que me espera.
Texto que escrevi para um Campeonato de Escrita Criativa.
Imagem retirada de sobreavida.com.br
